ela pisava, descalça, pelas amoras do parque.
havia uma fina diferença entre pisoteá-las assim,
ou com o velho all star.
o tênis espalharia a fruta pelo chão, quase sem propósito,
sujando-se em ato de sutil arrogância.
o pé não.
o pé é quase tão vítima e amante quanto a fruta.
a fruta massageia o pé, o pé entrega-se ao sumo.
a terra aprova.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
sábado, 20 de fevereiro de 2010
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
demian
mas cada homem não é apenas ele mesmo;
é também um ponto único, singularíssimo,
sempre importante e peculiar,
no qual os fenômenos do mundo se cruzam daquela forma
uma só vez e nunca mais.
hermann.hesse
é também um ponto único, singularíssimo,
sempre importante e peculiar,
no qual os fenômenos do mundo se cruzam daquela forma
uma só vez e nunca mais.
hermann.hesse
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
domingo, 31 de janeiro de 2010
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
alucinação
eu não estou interessado
em nenhuma teoria
em nenhuma fantasia
nem no algo mais
nem em tinta pro meu rosto
ou oba oba, ou melodia
para acompanhar bocejos
sonhos matinais...
eu não estou interessado
em nenhuma teoria
nem nessas coisas do oriente
romances astrais
a minha alucinação é suportar o dia-a-dia
e meu delírio é a experiência
com coisas reais...
um preto, um pobre
uma estudante, uma mulher sozinha
blue jeans e motocicletas
pessoas cinzas normais
garotas dentro da noite
revólver: cheira cachorro
os humilhados do parque
com os seus jornais...
carneiros, mesa, trabalho
meu corpo que cai do oitavo andar
e a solidão das pessoas
dessas capitais
a violência da noite
o movimento do tráfego
um rapaz delicado e alegre
que canta e requebra
é demais!...
cravos, espinhas no rosto
rock, hot dog
"play it cool, baby"
doze jovens coloridos
dois policiais
cumprindo o seu duro dever
e defendendo o seu amor
e nossa vida
mas eu não estou interessado
em nenhuma teoria
em nenhuma fantasia
nem no algo mais
longe o profeta do terror
que a laranja mecânica anuncia
amar e mudar as coisas
me interessa mais...
.belchior.
em nenhuma teoria
em nenhuma fantasia
nem no algo mais
nem em tinta pro meu rosto
ou oba oba, ou melodia
para acompanhar bocejos
sonhos matinais...
eu não estou interessado
em nenhuma teoria
nem nessas coisas do oriente
romances astrais
a minha alucinação é suportar o dia-a-dia
e meu delírio é a experiência
com coisas reais...
um preto, um pobre
uma estudante, uma mulher sozinha
blue jeans e motocicletas
pessoas cinzas normais
garotas dentro da noite
revólver: cheira cachorro
os humilhados do parque
com os seus jornais...
carneiros, mesa, trabalho
meu corpo que cai do oitavo andar
e a solidão das pessoas
dessas capitais
a violência da noite
o movimento do tráfego
um rapaz delicado e alegre
que canta e requebra
é demais!...
cravos, espinhas no rosto
rock, hot dog
"play it cool, baby"
doze jovens coloridos
dois policiais
cumprindo o seu duro dever
e defendendo o seu amor
e nossa vida
mas eu não estou interessado
em nenhuma teoria
em nenhuma fantasia
nem no algo mais
longe o profeta do terror
que a laranja mecânica anuncia
amar e mudar as coisas
me interessa mais...
.belchior.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
uma sombra passou por aqui
continuava a chuva.
chuva forte, perpétua, suada, fumegante, garoa,
aguaceiro, fonte, enxugar de olhos, sucção de tornozelos,
chuva para afogar todas as chuvas e a recordação das chuvas.
ray.bradbury
chuva forte, perpétua, suada, fumegante, garoa,
aguaceiro, fonte, enxugar de olhos, sucção de tornozelos,
chuva para afogar todas as chuvas e a recordação das chuvas.
ray.bradbury
sábado, 23 de janeiro de 2010
damasco
foi hoje de manhã.
quando abri um iogurte de damasco. daqueles com pedaços inidentificáveis de fruta.
coloquei o pote sobre a pia e joguei a tampinha de metal no lixo reciclável.
olhei pro potinho.
eu sempre tive nojo de pias.
meu pai costumava limpar lulas nela quando eu era criança e eu ainda vejo as tripas espalhadas pelo mármore.
é o tipo de coisa que nem álcool e fogo consegue limpar.
senti inveja do potinho de iogurte.
uma inveja absurda por ele ser de plástico e, óbviamente, mais resistente ao tempo do que eu.
imaginei uma mórbida corrida pútrida entre o meu cadáver e o potinho.
o potinho venceria. não havia dúvida.
eu estava tão vulnerável...
aos 36 anos, numa batalha infinita contra nunca-saberemos-o-que, ela começou a chorar no meu sofá.
servi-lhe café, desejando secretamente que a cena acabasse logo.
ela era geniosa, certamente, mas perdera-se na angústia de fazer escolhas não-convencionais.
agora estava aí, com inveja de um potinho plástico, o que seria poeticamente gracioso, salvo o fatigar de suas crises metafóricas.
continuou a chorar, pulando de um assunto para outro e tentando, sem muito sucesso, amenizar a própria situação.
eu mesmo comecei a ter inveja do potinho de iogurte.
quando abri um iogurte de damasco. daqueles com pedaços inidentificáveis de fruta.
coloquei o pote sobre a pia e joguei a tampinha de metal no lixo reciclável.
olhei pro potinho.
eu sempre tive nojo de pias.
meu pai costumava limpar lulas nela quando eu era criança e eu ainda vejo as tripas espalhadas pelo mármore.
é o tipo de coisa que nem álcool e fogo consegue limpar.
senti inveja do potinho de iogurte.
uma inveja absurda por ele ser de plástico e, óbviamente, mais resistente ao tempo do que eu.
imaginei uma mórbida corrida pútrida entre o meu cadáver e o potinho.
o potinho venceria. não havia dúvida.
eu estava tão vulnerável...
aos 36 anos, numa batalha infinita contra nunca-saberemos-o-que, ela começou a chorar no meu sofá.
servi-lhe café, desejando secretamente que a cena acabasse logo.
ela era geniosa, certamente, mas perdera-se na angústia de fazer escolhas não-convencionais.
agora estava aí, com inveja de um potinho plástico, o que seria poeticamente gracioso, salvo o fatigar de suas crises metafóricas.
continuou a chorar, pulando de um assunto para outro e tentando, sem muito sucesso, amenizar a própria situação.
eu mesmo comecei a ter inveja do potinho de iogurte.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
alforria profana
se me afagas demente
do alto de teu sono latente, nesmeyana
é pra depois a vida ter valor
se passivo deleito e cultivo
nesta espera insana
uma tal simpatia pela dor
é sabendo que vivo
como quem flana
satisfeito
pelo impossível
hora ironia, hora esplendor
um olho me guia
tangível a tudo que emana
o outro
inatingível
inebria o sentido
alforria profana
e tateia teu timbre
e degusta o olor
se teu ser aldrúbio
desencadeia nostalgia
e cativa
o meu olho transgressor
ao sóbrio nada suscita
mas como o olhar me é dúbio
é com essa vista bendita
que sigo na expectativa
hora euforia, hora torpor
do alto de teu sono latente, nesmeyana
é pra depois a vida ter valor
se passivo deleito e cultivo
nesta espera insana
uma tal simpatia pela dor
é sabendo que vivo
como quem flana
satisfeito
pelo impossível
hora ironia, hora esplendor
um olho me guia
tangível a tudo que emana
o outro
inatingível
inebria o sentido
alforria profana
e tateia teu timbre
e degusta o olor
se teu ser aldrúbio
desencadeia nostalgia
e cativa
o meu olho transgressor
ao sóbrio nada suscita
mas como o olhar me é dúbio
é com essa vista bendita
que sigo na expectativa
hora euforia, hora torpor
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
o gênio ocioso
hoje sinto orgulho que dizer que sou inumano,
que não pertenço a homens e governos,
que nada tenho a ver com a maquinaria rangente da humanidade
– eu pertenço à terra!
henry.miller
que não pertenço a homens e governos,
que nada tenho a ver com a maquinaria rangente da humanidade
– eu pertenço à terra!
henry.miller
domingo, 17 de janeiro de 2010
esta noite o rei não dorme
si pudieses liberarte, por una vez, de ti mismo
el secreto de los secretos se abriría a ti.
el rostro de lo desconocido, oculto más allá del universo,
aparecería en el espejo de tu percepción.
en realidad, tu alma y la mía son lo mismo.
aparecemos y desaparecemos el uno con el otro.
este es el verdadero significado de nuestras relaciones.
entre nosotros, ya no hay ni tú ni yo.
.rumi.
el secreto de los secretos se abriría a ti.
el rostro de lo desconocido, oculto más allá del universo,
aparecería en el espejo de tu percepción.
en realidad, tu alma y la mía son lo mismo.
aparecemos y desaparecemos el uno con el otro.
este es el verdadero significado de nuestras relaciones.
entre nosotros, ya no hay ni tú ni yo.
.rumi.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
puro extrato de sebo
- whisky tem gosto de livro velho.
- discordo. se o livro é bom, a velhice só lhe aumenta o charme.
whisky tem gosto de cheiro de livro velho.
- discordo. se o livro é bom, a velhice só lhe aumenta o charme.
whisky tem gosto de cheiro de livro velho.
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