sexta-feira, 26 de junho de 2009

a volta

noite a dentro, o vidro embaçado difunde as luzes que passeiam pelas janelas do ônibus.
circularmente, deslizo os dedos por aquela condensação pulmonar alheia.
e me imagino vista de fora.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

aconteceu

quando um descaminho
acha o seu desvio
tudo se alivia
foi melhor assim
quando dei por mim
já estava aqui
e agora.


.marisa monte.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

1 em 1 milhão de vezes

- ô mocinha, seu tênis tá desamarrado.
- ah..
- é que quando a gente é pai uma vez, nunca deixa de ser, sabe?

quarta-feira, 17 de junho de 2009

pretenciosamente despretencioso

poderia, sim, tranquilamente, ser pura inveja. mas isso seria mais fácil de engolir, suponho.
o fato é que o filme "apenas o fim", é chatíssimo.
[nesse espaço você pode refletir o quanto isso soa como inveja]
pois bem, sabendo que o filme foi feito por jovens estudantes de cinema da puc do rio, que agora começam a ser chamados de "a nova geração", ganhando certa visibilidade e alguns prêmios, todos os outros mortais estudantes do ramo sentem um certo nó na garganta.
conseguindo entender racionalmente tal fato, me desarmei de pré-conceitos e fui assistir o filme até mesmo pré-disposta a ver o que ele tem de bom. e tem, um pouco.
principalmente gregório duvivier, ator que carrega o filme nas costas, e algumas raras frases engraçadas.
mas, a bem da [minha] verdade, o filme é [repito!] chatíssimo.
consegui facilmente passar por cima das manchas na lente da câmera, das cores estouradas e do som mal captado, já que muito disso não deve ser culpa dos estudantes (experiência própria).
mas todo o resto não diz respeito à técnica...
cópia descarada de "antes do amanhecer" e "antes do pôr-do-sol", que aliás, já são cópias um do outro, "apenas o fim" tem por base (como todo filme de baixíssimo orçamento), o diálogo.
e aí entra o problema. diálogo este extraordinariamente desinteressante, recheado de frases de efeito e nomes de marcas (mcdonald's, lojas americanas, coca-cola...), essas, aparentemente, nem servindo de merchandising estavam; são citadas, juntamente com uma avalanche de referências estereotipadas (strokes, all star, orkut...), na tentativa desesperada de atingir um público jovem (chegando a lembrar a novelinha "malhação").
a falta de argumento do roteiro também incomoda. a garota esta terminando com o namorado porque vai fugir da cidade em 1 hora, e essa 1 hora de conversa é o filme.
pois bem, não parece uma fuga, muito menos um término de namoro. parece uma conversa entre amigos pseudo-cults em uma caminhada pelo ibirapuera.
nem mesmo a brevíssima (e surpreendentemente sem graça) aparição de marcelo adnet levanta a trama.
fora os vários momentos em que o filme se mostra na defensiva, colocando no tal diálogo tudo que o próprio filme tem de fraco.
agora sim posso admitir um pouco da minha inveja: o que me irrita nisso tudo é o reconhecimento nacional que esses caras estão conseguindo [ao meu ver] por nada.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

um pouco do que não fui - a mais mentirosa autobiografia

palavras domésticas – um suposto primeiro capítulo

muito me aborrece esta frustradíssima tentativa de se instalar um “neo-dadaísmo” na literatura.
bando de moleques tão inseguros e prepotentes quanto eu, porém, sem auto-crítica alguma.
são meia dúzia de palavras xulas aqui, mais algumas palavras em praticável desuso e, voilà: sou um escritor maldito, um poeta boêmio. como se obscenidades ainda chocassem alguém. mais fácil chocar com sutis delicadezas. e melhor! a boemia dos antigos botecos do bexiga é reduzida (e comparada!) às atuais boates elitistas.
em certos momentos chego a acreditar que a tentativa de escrever algo (ainda que péssimo), tirar boas fotos (sim! a onda se estende às mais caras lentes cor-de-rosa), ou qualquer manifestação artística que não envolva uma relação muito direta com talento (como pintura ou escultura... se bem que...) já é válida, já é o mais longe que uma juventude-classe-média-tolinha já chegou.
contudo, logo percebo que isso só cria uma avalanche de “arnaldos” antunes.
e o que pode ser pior que isso?
a causa de tanta falta de conteúdo, ao meu ver, não é pura e simplesmente a falta de talento nato, é, principalmente, a falta de repertório.
a velha mania de ler resumos. o não-estímulo literário dos (tão tolinhos quanto) pais.
o medo de livros grandes. o precaríssimo programa educacional.
o estímulo para começar a tentar se meter com arte? moda! incrível, não?
alguém um dia inventa um termo (seja ele cult, indie, ou o raio que o parta), desenterra uns filmes clássicos, põe umas roupas que a vó chama de “esquisitas” e pronto, sou único e criativo até minhas roupas estarem na vitrine da c&a (e esse processo é extraordinariamente rápido).
como naquela conversa em que, em uma epifania, entendi que o povo entra em contato com a moda tempo suficiente para querer e não o bastante para se apegar.
eu não sou chico, não quero tentar, e só escrevo na esperança de ganhar dinheiro com isso, já que ainda se paga pela água e pelo teto, o que, ao meu ver, é o cúmulo do absurdo.

sábado, 13 de junho de 2009

aurora

a coitada, mais que cansada, ainda teve que aguentar o nascer do sol em são paulo,
esse degradê de cinzas.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

logística

me parece fazer sentido que o paraíso fique entre a saúde e a liberdade.

terça-feira, 26 de maio de 2009

mais valia

eu gostaria de passar a vida pensando.
no máximo lendo, e pensando sobre o que li.
mas alguém inventou que mesmo para beber água,
é preciso dinheiro.

e quem ganha dinheiro pensando?

sábado, 2 de maio de 2009

baader-meinhof blues

a violência é tão fascinante
e nossas vidas são tão normais
e você passa de noite e sempre vê
apartamentos acesos
tudo parece ser tão real
mas você viu esse filme também.

andando nas ruas
pensei que podia ouvir
alguém me chamando
dizendo meu nome.

já estou cheio de me sentir vazio
meu corpo é quente e estou sentindo frio
todo mundo sabe e ninguém quer mais saber
afinal, amar o próximo é tão demodé.

essa justiça desafinada
é tão humana e tão errada
nós assistimos televisão também
qual é a diferença?

não estatize meus sentimentos
pra seu governo,
o meu estado é independente.

já estou cheio de me sentir vazio
meu corpo é quente e estou sentindo frio
todo mundo sabe e ninguém quer mais saber
afinal, amar o próximo é tão demodé.

.legião, doa-a-quem-doer, urbana.