terça-feira, 16 de dezembro de 2008

mesma moeda

comíamos como bons burgueses.
café da manhã vasto em frente à grande janela aberta.
além da janela, do outro lado da rua, dois trabalhadores levantavam uma parede.
suados, retinham e respiravam pó de cimento.
não houve troca de olhares entre eles e nós, mas se houvesse eu não saberia distinguir quem era espectador e quem era peça.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

bouchonné

mais um grande lenço xadrez em tons de cinza tornava arrogante um pescoço delicado.
ele tentava convencer-me das qualidades de um vinho branco.
falava-me do bouquet e de muitos outros detalhes narcísicos, típicos de pseudo-enólogos, vide lado paterno.
o lado materno não ouvia, mas concordava.
e ele continuava prolongando minha decantação.
as lágrimas hesitavam em dúvida, não sabendo por onde deviam escorrer, pelo côncavo ou pelo convexo.
acabavam sempre por acatar newton e desciam sinuosas, como a desbravar terrenos áridos.
o lenço. o lenço era mais expressivo que o pescoço, a garganta e as cordas vocais, juntos.
quanta propriedade a língua tentava demonstrar, falhando miseravelmente a cada gole.
toda monotonia alcoólica, um quase-moralismo lapidado.
um moderno.
certamente era preferível um tinto a falar-me sobre le parkour.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

vidas-salvas

eram 3 minutos de dificuldade.
mas vá lá, eram apenas 3 minutos.
3 minutinhos, como dizem.
o tempo de um miojo.
se a água já estiver fervendo, claro.
o problema começa quando você está fervendo.
não importa se a fonte aumenta ou diminui, você vai continuar fervendo, se houver fonte.
e sempre há.
o problema não evapora. como bolhas pela pele, ele só vai ardendo mais.
e aí você percebe que os 3 minutos foram 3 horas.
mas pelo menos você não se afogou.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

a melhor re-descoberta das férias

i love death




lodger.tv

na rotina bege-sujo dessa rua

vou me deixar aqui, caso seja seu caminho.

oxige.nada

nunca aprofundei uma conversa com ela.
não conseguia me concentrar.
ela era tão bonita que ofuscava qualquer argumento que eu tivesse.
me hipnotizava.
era o tipo de pessoa que não faz nada demais, não diz nada demais, não quer nada demais... mas nossa, como era linda!
agora ela está loira e puxa, como perdeu a graça...

aquecimento

será que só eu enxergo alguma semelhança entre o sol e o inferno?

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

(falta de) bom senso natalino

excesso de natal.
é disso que algumas pessoas sofrem nessa época.
uma árvore bem montada, umas luzinhas delicadas (ou seja: brancas e que não pisquem!), uma guirlanda coerente com a porta... tudo isso é bonitinho (não entrando no mérito natal-coca-cola-capitalismo-pleno-verão).
mas tem gente por aqui que enche o telhado de luzinha colorida piscando frenéticamente, na graminha da frente da casa coloca um papai noel inflável enorme, duas renas que piscam e uns doendes, na varanda mais pisca-pisca colorido, metade apagado (essas luzinhas não duram nada, não?), um papai noel pendurado numa escadinha, todo enrolado por causa do vento, estrelas mal posicionadas, com as cores dos states, que piscam independentes umas das outras, sem harmonia alguma, mangueirinhas luminosas formando corações toscos (que falta de nexo), árvores imensas com enfeites horrorosos só até onde um ser baixo e sem escada alcançou, neve artificial, e todo tipo de parafernalha natalina que se possa mensurar!

é natal ou carnaval?

conclusão esquisitinha

eu tenho medo de ganhar.

sábado, 29 de novembro de 2008

reflorestamento de nós

dentro das órbitas, esférica sequoia talhada
o cerne pupílico, envolto em humor
mitológica moléstia de visão petrificada
doce alburno, das chuvas interiores condutor
se dessa medula apenas vestígio, da outra, razão de ser
do seu lenho extraio estrutura
talhador exímio, arte pura
do seu olhar, meu florescer

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

sonho por sonho, caixa por caixa.

o que é frágil, recomenda-se separar e enrolar em toalhas.
desce as cinco prateleira ao chão. sobram os furos na parede.
atrás do poster, poeira.
embaixo da cômoda, poeira.
poeira metódicamente decantada por longos dezoito meses.
poeira que eu sacudi naquela manhã.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

alta voltagem, baixa amperagem

havia a borboleta.
asas alvas, cor de pérola. com as bordas pretas.
muito pequena e arredondada.
voava aquele vôo desesperado de borboleta:
plana-cai-plana-cai-plana.
começou a subir em gracioso zigue-zague, pendendo para a direita, como quem desejava pular aquele muro.
havia a cerca elétrica.
quatro honrosos fios de aço zunindo em uníssono.
as membranas escamadas em furta-cor, o ferro, o carbono...
funesto beijo no meio da minha terça-feira.