toda noite brotam pequenas luzes verdes pelo quarto.
sem hesitar, beijam o lustre enquanto a lâmpada amarela repousa.
tal adúltero eclipse cria, no teto, uma cúmplice sobreposição de sombras minguantes.
pela janela, resquícios do dia anterior.
a luz da lua, que não é dela, moldada nas treliças, passeia pelo quarto.
de manhã os riscos dançantes tornam-se mais fartos.
porém mais tenros.
não mais carregam a aura vulgar da escuridão, e desanuviam meu contemplar sonolento.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
terça-feira, 14 de outubro de 2008
os espertos ao contrário
ela é a beira do mundo.
o transborde desprendido da última gota.
a suposta prepotência de deus.
o que corre nos fios e nas veias.
ela é ruim.
e já foi humana.
hoje brinca de homem par.
o trocadilo copião.
ela ou ele ou o que será.
o que seria de nós sem ela.
o que seria, será, ou não?
ela estamira.
o transborde desprendido da última gota.
a suposta prepotência de deus.
o que corre nos fios e nas veias.
ela é ruim.
e já foi humana.
hoje brinca de homem par.
o trocadilo copião.
ela ou ele ou o que será.
o que seria de nós sem ela.
o que seria, será, ou não?
ela estamira.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
encontro marcado
quem assiste um corpo dormir flerta com os mistérios do ser.
proporciona-me fascínio e angústia o fato de que tal corpo, um dia, será apenas um corpo.
e por esse corpo sentirei repulsa, pois não estamos falando de corpo.
a camisa sanguínea há de perecer.
o ser permanece.
em tela, em letra, em película,
em saber, em sentir,
em mim.
proporciona-me fascínio e angústia o fato de que tal corpo, um dia, será apenas um corpo.
e por esse corpo sentirei repulsa, pois não estamos falando de corpo.
a camisa sanguínea há de perecer.
o ser permanece.
em tela, em letra, em película,
em saber, em sentir,
em mim.
domingo, 12 de outubro de 2008
todas as crianças que não fomos
em 1761, com 5 anos, um adorável garotinho começava a compor minuetos.
1 ano após seu próprio nascimento, um pequeno perturbado fora abandonado pelo pai e, mais um ano depois, em 1811, presenciou a morte da mãe.
em ulm de 1879, nasceu um gênio.
em abril de 1893, um outro garotinho completava, finalmente, 4 anos.
em 1907, aos 2 anos de idade, o estrábico mais confiante do mundo perdia o pai.
também aos 2 anos de idade, em 1922, aquela indescritível ucraniana, desembarcava em maceió.
em 1946, aquele menino encantador foi morar com a tia mimi.
o que você foi quando era criança?
1 ano após seu próprio nascimento, um pequeno perturbado fora abandonado pelo pai e, mais um ano depois, em 1811, presenciou a morte da mãe.
em ulm de 1879, nasceu um gênio.
em abril de 1893, um outro garotinho completava, finalmente, 4 anos.
em 1907, aos 2 anos de idade, o estrábico mais confiante do mundo perdia o pai.
também aos 2 anos de idade, em 1922, aquela indescritível ucraniana, desembarcava em maceió.
em 1946, aquele menino encantador foi morar com a tia mimi.
o que você foi quando era criança?
sábado, 11 de outubro de 2008
bem.ditas
benditas coisas que eu não sei
os lugares onde não fui
os gostos que não provei
meus verdes ainda não maduros
os espaços que ainda procuro
os amores que eu nunca encontrei
benditas coisas que não sejam benditas
a vida é curta, mas enquanto dura
posso durante um minuto ou mais
te beijar pra sempre o amor não mente,
não mente jamais.
e desconhece do relógio o velho futuro
o tempo escorre num piscar de olhos
e dura muito além dos nossos sonhos mais puros
bom é não saber o quanto a vida dura
ou se estarei aqui na primavera futura
posso brincar de eternidade agora
sem culpa nenhuma
mart'nália.e.zélia.duncan
os lugares onde não fui
os gostos que não provei
meus verdes ainda não maduros
os espaços que ainda procuro
os amores que eu nunca encontrei
benditas coisas que não sejam benditas
a vida é curta, mas enquanto dura
posso durante um minuto ou mais
te beijar pra sempre o amor não mente,
não mente jamais.
e desconhece do relógio o velho futuro
o tempo escorre num piscar de olhos
e dura muito além dos nossos sonhos mais puros
bom é não saber o quanto a vida dura
ou se estarei aqui na primavera futura
posso brincar de eternidade agora
sem culpa nenhuma
mart'nália.e.zélia.duncan
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
.instantes antes
por volta das onze e meia da manhã aluguei, na faculdade, uma câmera fotográfica, para concluir um trabalho pendente. como o tempo de empréstimo era vasto, eu e o andré aproveitamos para tirar algumas fotos pelo prédio. um dos pontos escolhidos foi a janela do terceiro andar, que tem sua vista para a avenida paulista, no sentido consolação.
além de fotos da avenida em si, com seus pedestres-guarda-chuva, bati uma foto dos banquinhos da área comum do prédio residencial ao lado, e o andré focou as janelas deste mesmo prédio.
acredito ter sido a terceira ou quarta vez que dei alguma atenção para a bela vista daquele local, em quase dois anos.
pois bem, o fato é que cerca de meia hora mais tarde voltamos ao terceiro andar e vimos uma grande aglomeração de pessoas exatamente naquele espaço e, conforme nos aproximávamos, ouvíamos rumores, hipóteses, risadas sádicas e todo tipo de reação ao mórbido.
no chão, abaixo das janelas e perto dos banquinhos, havia um homem morto.
o corpo já estava coberto. bati uma foto sem saber direito porque. cogitei a idéia de vendê-la a algum jornal, considerando-a vergonhosa e absurda logo em seguida. resolvi apagá-la. não apaguei. algum motivo me fez hipnotizada pela foto. não vi o desfecho da cena real, não espalhei a notícia, não pensei muito sobre tudo isso.
apenas senti profundamente aquele misto de frágil-banalidade.
além de fotos da avenida em si, com seus pedestres-guarda-chuva, bati uma foto dos banquinhos da área comum do prédio residencial ao lado, e o andré focou as janelas deste mesmo prédio.
acredito ter sido a terceira ou quarta vez que dei alguma atenção para a bela vista daquele local, em quase dois anos.
pois bem, o fato é que cerca de meia hora mais tarde voltamos ao terceiro andar e vimos uma grande aglomeração de pessoas exatamente naquele espaço e, conforme nos aproximávamos, ouvíamos rumores, hipóteses, risadas sádicas e todo tipo de reação ao mórbido.
no chão, abaixo das janelas e perto dos banquinhos, havia um homem morto.
o corpo já estava coberto. bati uma foto sem saber direito porque. cogitei a idéia de vendê-la a algum jornal, considerando-a vergonhosa e absurda logo em seguida. resolvi apagá-la. não apaguei. algum motivo me fez hipnotizada pela foto. não vi o desfecho da cena real, não espalhei a notícia, não pensei muito sobre tudo isso.
apenas senti profundamente aquele misto de frágil-banalidade.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
o cisne e a raposa
a raposa nunca machucou o cisne.
e assim começa.
a raposa nunca machucou o cisne.
o homem machucou.
o homem e sua ganância acabaram com toda uma fauna na cidade de papel.
valdivia, no chile, teve seu grande pantanal, que possuía uma colônia de mais de 7000 cisnes, destruído (de 2004 até hoje) por uma fábrica de papel.
a segunda mais lucrativa do mundo.
a política hipócrita, contraditória, burocrática e corrupta (que sabidamente não é exclusividade dos chilenos) nada fez além de complicar a resolução implorada pela população que, em ato contínuo, corajoso e admirável, se mobiliza até hoje em prol da causa.
pelo menos eles se mobilizam, não?
a raposa, por sua vez, foi pra toca ler sponville e entender que se a esperança se manteve no fundo da caixa de pandora, não foi por ser uma quase-desculpa divina, e sim por ser o mais denso dos males.
e assim começa.
a raposa nunca machucou o cisne.
o homem machucou.
o homem e sua ganância acabaram com toda uma fauna na cidade de papel.
valdivia, no chile, teve seu grande pantanal, que possuía uma colônia de mais de 7000 cisnes, destruído (de 2004 até hoje) por uma fábrica de papel.
a segunda mais lucrativa do mundo.
a política hipócrita, contraditória, burocrática e corrupta (que sabidamente não é exclusividade dos chilenos) nada fez além de complicar a resolução implorada pela população que, em ato contínuo, corajoso e admirável, se mobiliza até hoje em prol da causa.
pelo menos eles se mobilizam, não?
a raposa, por sua vez, foi pra toca ler sponville e entender que se a esperança se manteve no fundo da caixa de pandora, não foi por ser uma quase-desculpa divina, e sim por ser o mais denso dos males.
domingo, 5 de outubro de 2008
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
caio.fernando.abreu
tenho tentado aprender a ser humilde. a engolir os nãos que a vida me enfia pela goela a baixo. a lamber o chão dos palácios. a me sentir desprezado-como-um-cão, e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar.
a filosofia e o extra
kotsuka diz:
encontrei com a lia um mês atrás... no extra.
ficamos batendo moh papo, com bossa nova de fundo, no setor de frango.
encontrei com a lia um mês atrás... no extra.
ficamos batendo moh papo, com bossa nova de fundo, no setor de frango.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
quase um segredo
a menina das duas tranças tem um tribal no tornozelo e uma filha pra criar.
a menina das duas tranças sempre esteve perdida na vida.
mas quem disse que a vida tem mapas?
a menina das duas tranças sempre esteve perdida na vida.
mas quem disse que a vida tem mapas?
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